Quando perder o foco foi, afinal, um sinal de sucesso

Quando perder o foco foi, afinal, um sinal de sucesso

À primeira vista, pode parecer que uma sessão de aprendizagem intergeracional está a perder eficácia quando a conversa deixa de ser sobre tecnologia.

O plano previa ensinar a utilizar uma aplicação. Mas, de repente, alguém mostra uma fotografia antiga. Surge uma história de infância. Outro participante recorda o primeiro emprego. Os jovens fazem perguntas. Os sorrisos multiplicam-se. Durante alguns minutos, ninguém fala de smartphones, redes sociais ou videochamadas.

Na maioria dos contextos educativos, alguém poderia concluir que a sessão se desviou dos seus objetivos. No Beyond NEET 2.0, aprendemos exatamente o contrário.

Durante a reunião transnacional realizada em Madrid, os parceiros partilharam uma experiência comum.

Em praticamente todos os países, houve momentos em que as atividades planeadas deram lugar a conversas espontâneas entre jovens e pessoas seniores.

Inicialmente, alguns facilitadores tentaram trazer o grupo de volta ao plano previsto. Com o tempo perceberam que essas conversas não eram uma interrupção. Eram uma parte essencial da aprendizagem.

 

Antes de ensinar, é preciso criar confiança

Aprender exige confiança. Uma pessoa dificilmente pede ajuda ou admite que não sabe fazer determinada tarefa se sentir que está a ser avaliada. As conversas informais criaram precisamente esse ambiente. Enquanto partilhavam histórias pessoais, participantes de diferentes gerações deixavam de ser desconhecidos. Construíam relações. Conheciam-se. Criavam empatia. Foi essa confiança que, mais tarde, tornou a aprendizagem digital muito mais natural.

 

O verdadeiro valor da aprendizagem intergeracional

A tecnologia foi o ponto de partida, mas nunca foi o único objetivo. Ao longo das sessões, os jovens descobriram experiências de vida que dificilmente encontrariam num livro. Ouviram relatos sobre profissões que desapareceram, mudanças sociais profundas, desafios familiares e momentos marcantes da história recente.

 

Por sua vez, as pessoas seniores passaram a conhecer melhor as aspirações, preocupações e formas de comunicar das gerações mais novas. Sem que estivesse previsto, nasceu um diálogo entre gerações. E esse diálogo revelou-se tão importante como qualquer competência digital adquirida.

 

Aprender também é escutar

Um dos aspetos mais valorizados pelos parceiros foi precisamente o desenvolvimento das chamadas competências humanas. Os jovens aprenderam a escutar sem interromper. A adaptar o ritmo da conversa. A perceber quando era mais importante ouvir do que explicar. Estas competências dificilmente se desenvolvem através de apresentações ou exercícios teóricos. Constroem-se na relação com os outros.

 

Quando o tempo investido gera impacto

Num contexto marcado pela rapidez e pela pressão para cumprir objetivos, pode existir a tentação de medir o sucesso apenas pelo número de conteúdos transmitidos.

A experiência do Beyond NEET 2.0 convida-nos a olhar para outros indicadores. Quantas pessoas ganharam confiança? Quantos participantes sentiram que alguém os ouviu com atenção? Quantos jovens descobriram capacidades que desconheciam possuir? Quantas relações nasceram a partir de uma simples conversa?

São resultados menos visíveis, mas muitas vezes mais duradouros.

 

Uma metodologia centrada nas pessoas

Uma das principais aprendizagens do projeto é que metodologias verdadeiramente centradas nas pessoas exigem flexibilidade.

Seguir um plano continua a ser importante, mas saber adaptá-lo às necessidades do grupo é ainda mais importante. Quando um participante sente necessidade de partilhar uma experiência, esse momento pode transformar-se numa oportunidade para fortalecer a confiança, estimular a participação e criar um ambiente mais favorável à aprendizagem.

No Beyond NEET 2.0, essa flexibilidade revelou-se um dos fatores de sucesso. No final das sessões, muitos participantes recordarão como utilizar uma nova aplicação ou configurar um smartphone. Mas aquilo que permanecerá durante mais tempo será, provavelmente, outra coisa… a conversa que não estava prevista, a história que alguém decidiu contar, o tempo dedicado a ouvir, o sentimento de pertença.

Porque, no fim, percebemos que as melhores sessões não foram necessariamente aquelas em que tudo correu exatamente como estava planeado.

Foram aquelas em que houve espaço para as pessoas. E isso talvez seja a maior lição do Beyond NEET 2.0.

 

Sobre o projeto

O Beyond NEET 2.0 é um projeto cofinanciado pelo Programa Erasmus+ da União Europeia, desenvolvido por um consórcio constituído pela União das Mutualidades Portuguesas (Portugal), Asociación Building Bridges (Espanha) e Irish Rural Link (Irlanda). A iniciativa promove a inclusão social de jovens NEET através da aquisição de competências pessoais, sociais e digitais, fomentando simultaneamente a aprendizagem intergeracional e a participação ativa das pessoas seniores nas comunidades.

O projeto, realizado no âmbito do programa Erasmus+, é financiado pela União Europeia, através da Agência Nacional Erasmus+ Juventude/Desporto – Corpo Europeu de Solidariedade.

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