Existe uma ideia muito enraizada de que as pessoas seniores têm dificuldade em lidar com a tecnologia ou pouco interesse em aprender novas competências digitais. Smartphones, redes sociais, aplicações móveis ou videochamadas continuam, muitas vezes, a ser vistos como ferramentas reservadas às gerações mais jovens.
Contudo, a experiência do projeto europeu Beyond NEET 2.0 revelou uma realidade bastante diferente.
Durante a reunião transnacional do consórcio, realizada em Madrid, um dos aspetos mais destacados pelos parceiros foi precisamente a surpresa positiva relativamente à atitude dos participantes seniores. Em vez de resistência, encontraram curiosidade. Em vez de receio, encontraram vontade de aprender. E, em muitos casos, descobriram pessoas que já utilizavam regularmente ferramentas digitais para comunicar com familiares, procurar informação ou acompanhar os seus interesses.
Estas experiências ajudam a desconstruir alguns dos mitos mais comuns sobre o envelhecimento digital.
Mito 1: “As pessoas seniores não gostam de tecnologia”
Uma das primeiras conclusões do projeto foi que a maioria dos participantes não rejeitava a tecnologia. Pelo contrário. Muitos utilizavam diariamente smartphones e mostravam interesse em aprender novas funcionalidades que lhes permitissem comunicar melhor, aceder a serviços online ou utilizar aplicações que já conheciam apenas de forma limitada. A vontade de aprender revelou-se muito superior ao esperado.
Mito 2: “As redes sociais são apenas para os jovens”
Durante as sessões, vários parceiros verificaram que muitos participantes já utilizavam WhatsApp para falar com familiares, consultavam Facebook para acompanhar notícias locais e mantinham contacto com filhos e netos através de aplicações de mensagens.
Alguns utilizavam também Instagram e até TikTok, sobretudo para acompanhar conteúdos partilhados pelas gerações mais novas da família.
A tecnologia revelou-se, muitas vezes, uma forma de reduzir distâncias e fortalecer relações familiares.
Mito 3: “Aprender tecnologia é demasiado difícil numa idade avançada”
A experiência do Beyond NEET 2.0 mostrou exatamente o contrário. Quando a aprendizagem acontece num ambiente tranquilo, respeitando o ritmo de cada pessoa e privilegiando a prática, os resultados surgem naturalmente.
Os jovens mentores perceberam rapidamente que o segredo não estava em explicar depressa, mas em explicar de forma simples, utilizando exemplos concretos e repetindo sempre que necessário. Mais do que idade, o fator determinante foi a confiança.
Mito 4: “Os jovens são os únicos que ensinam”
Embora os jovens tenham desempenhado o papel de mentores digitais, rapidamente ficou evidente que a aprendizagem acontecia nos dois sentidos.
Enquanto explicavam como utilizar aplicações ou configurar dispositivos, ouviam histórias de vida, conheciam experiências profissionais, aprendiam sobre outras épocas e descobriam diferentes formas de enfrentar desafios.
A tecnologia aproximou gerações que tinham muito para ensinar umas às outras.
Mito 5: “O maior benefício é aprender a usar tecnologia”
Talvez esta tenha sido a maior surpresa do projeto. Naturalmente, as competências digitais aumentaram. Mas aquilo que mais marcou participantes e parceiros foi o fortalecimento das relações humanas.
Ao longo das sessões criaram-se conversas, amizades, momentos de partilha e um sentimento de confiança que ultrapassou largamente os objetivos técnicos inicialmente previstos.
A tecnologia foi importante. Mas acabou por ser apenas o ponto de partida. Muito mais do que competências digitais
As conclusões do Beyond NEET 2.0 mostram que o envelhecimento digital deve ser encarado de uma forma muito mais ampla.
Promover competências digitais significa também reforçar a autonomia, facilitar o acesso a serviços públicos e de saúde, aproximar famílias e combater o isolamento social.
Ao mesmo tempo, significa oferecer aos jovens a oportunidade de desenvolver competências como a empatia, a comunicação, a liderança e a responsabilidade.
Mais do que ensinar tecnologia, o projeto criou um espaço onde diferentes gerações aprenderam a conhecer-se, a respeitar-se e a valorizar aquilo que cada uma tem para oferecer.
Num tempo em que o envelhecimento da população constitui um dos maiores desafios europeus, esta poderá ser uma das principais lições do Beyond NEET 2.0: a idade não determina a capacidade de aprender. O que faz a diferença é a oportunidade de o fazer em conjunto.
Sobre o projeto
O Beyond NEET 2.0 é um projeto cofinanciado pelo Programa Erasmus+ da União Europeia, desenvolvido por um consórcio constituído pela União das Mutualidades Portuguesas (Portugal), Asociación Building Bridges (Espanha) e Irish Rural Link (Irlanda). A iniciativa promove a inclusão social de jovens NEET através da aquisição de competências pessoais, sociais e digitais, fomentando simultaneamente a aprendizagem intergeracional e a participação ativa das pessoas seniores nas comunidades.
O projeto, realizado no âmbito do programa Erasmus+, é financiado pela União Europeia, através da Agência Nacional Erasmus+ Juventude/Desporto – Corpo Europeu de Solidariedade.
